O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

DESTAQUES SEMANAIS

Trigésimo segundo domingo do Tempo Comum – ANO C

10/11/2019

Trigésimo segundo domingo do Tempo Comum – ANO  C

10/11/2019

Leituras:   Lc 20, 27-38; 2 Mc 7,1-2.9-14; Sl 17(16); 2 Ts 2,16-3,5          

 
LIVRES DE TODO O MAL

 

1. Ponto de partida:

Quando as crianças brincam de pegar, costumam combinar um lugar para ser o “pique”. Quem chega lá e toca o pique não pode mais ser agarrado pelo adversário.

Fora da brincadeira, há situações em que as crianças procuram refúgios que funcionam do mesmo modo que o pique: escondem-se atrás do irmão mais velho quando algum valentão quer bater nelas, correm para o colo da avó quando a mãe fica brava...

Adultos podem igualmente precisar de um abrigo seguro; é o que acontece com refugiados políticos protegidos em embaixadas. Nos perigos e tensões do cotidiano, para muitos, o refúgio é o lar, a igreja, a casa de um amigo, ou até o lugar de trabalho. Em todos os casos, busca-se uma situação de alívio e segurança porque, como dizia um famoso personagem de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso...”

 

2. Reflexão bíblica:

Uma cena de filme de horror

A primeira leitura nos apresenta o espetáculo terrível de 7 irmãos sendo barbaramente torturados diante da mãe, para que reneguem sua tradição religiosa. Pode nos parecer fútil essa história de comer ou não comer carne de porco, mas trata-se de um símbolo poderoso da fidelidade aos princípios e à identidade do povo. O que está em jogo não é o legalismo de cumprir ou não um regulamento referente à alimentação. Ceder ao tirano nessa situação é apagar sua história, abandonar a fé, negar a Aliança.

Podemos ver nessa cena a réplica de muitos horrores que a humanidade tem criado para si mesma. Judeus nos campos de concentração, presos torturados para denunciarem companheiros, gente ameaçada de perder a vida e os bens em luta para seguir sua consciência - todos esses seriam algumas das versões modernas do suplício dos sete irmãos macabeus.

 

A esperança que supera o horror

O que sustenta os sete jovens e a mãe, para não cederem diante da violência do agressor? Eles crêem numa força maior, capaz de corrigir todo tipo de mal. Um dos jovens diz que podem arrancar partes do seu corpo porque ele as receberá de novo do mesmo criador que lhe deu a vida.

Os jovens macabeus são anunciadores de uma crença que era relativamente nova entre os judeus daquele tempo. Os antigos acreditavam que as recompensas de Deus aconteciam nesta vida: quem era bom e justo viveria muitos anos, teria prosperidade e saúde. Podemos encontrar essa idéia em muitos textos da Bíblia, escritos antes da época em que se passa essa cena que lemos hoje. É a chamada teologia da retribuição, ou da prosperidade, pela qual servir a Deus automaticamente produz lucro, ainda nesta vida.

Deus se utiliza dos fatos da vida para fazer avançar a revelação. Os jovens estavam morrendo por servir a Deus até o heroísmo. Não apareceria nenhum anjo para os salvar no último momento. Se Deus é justo, não seria possível que ficasse tudo por isso mesmo! Por esse caminho, foi sendo revelada a ressurreição dos mortos. Se até o último momento houve risco, sofrimento, perigo, daí para a frente Deus garante e endireita tudo.

 

Dúvidas ainda no tempo de Jesus

Na época de Jesus, a doutrina da ressurreição dos mortos ainda não tinha se firmado totalmente. Os saduceus, gente da classe dominante ligada aos sacerdotes, não aceitavam a ressurreição. Como muita gente faz ainda hoje, apoiavam-se na teologia da retribuição até mesmo para justificar a sua posição privilegiada. Afinal, se as recompensas de Deus eram distribuídas somente nesta vida e eles estavam bem, por cima, isso podia ser alegado como sinal de que eles é que tinham todos os méritos diante de Deus. Servia também para calar os injustiçados, os pobres, os desamparados: se não eram felizes era porque, por algum motivo, tinham merecido essa situação. Quem iria discutir a vontade de Deus?

É por isso que eles enfrentam Jesus. A teologia de Jesus é visivelmente outra.

 

Uma perguntinha para enrolar Jesus

Então lá vêm eles com um caso para ver se Jesus fica sem resposta. Se existe ressurreição, como fica a mulher que casou 7 vezes? Jesus reafirma a ressurreição e diz que não se pode simplesmente transpor para a vida eterna os regulamentos da nossa passagem pela terra. Ele não está dizendo que as pessoas deixam de ser elas mesmas, ou que nossos afetos são uma espécie de “falha” a ser superada. O que ele diz é que as relações humanas estarão livres de alguns embaraços que complicam a vida. Não explica muito, nem é preciso. Apenas declara que a situação apresentada pelos seus adversários não é impedimento para a felicidade que Deus pode e quer nos dar na eternidade.

 

Um Deus de vivos

Jesus declara que o Deus dos antepassados do povo, de Abraão, Isaac e Jacó, é um Deus de vivos, não de mortos. O que Deus um dia criou, ele mesmo reconhece e não deixa que se perca. Não há morte diante dele, nunca mais. Não vale só para os patriarcas, vale para todos nós, que seremos ressuscitados e para todos que lá chegaram antes de nós, guardados para sempre pelo Deus da Vida.

Não há pique mais seguro para o jogo da vida. Guardados em Deus, estamos a salvo de todo o mal. Sofrimentos serão águas passadas e todas as nossas mais fundas esperanças encontrarão uma indestrutível resposta.

 

Uma esperança para ser anunciada

A carta aos tessalonicenses pede que a comunidade ore pelos evangelizadores para que a boa notícia se propague. A melhor notícia é essa esperança da segurança a ser encontrada em Deus, aconteça o que acontecer nos caminhos acidentados da vida.

Não é uma esperança para gerar conformismo, em atitudes do tipo: “deixa ficar como está que depois Deus conserta”. Menos ainda se trata de dizer ao povo que não tem importância sofrer, passar fome, estar desamparado agora porque depois haverá felicidade no céu. Temos que anunciar essa esperança como Jesus mesmo a anunciou: como um estímulo para fazer com coragem o que Deus nos pede, para lutar pela justiça mesmo que haja riscos, porque Deus está vendo e curará nossas feridas se sairmos machucados da batalha pelos valores do Reino.

 

3. Conclusão:

  • A história dos 7 irmãos macabeus é um testemunho corajoso de fé na ressurreição.
  • Os fatos da vida ajudaram o povo a refletir e abriram caminho para a revelação que diz respeito à ressurreição dos mortos.
  • Ainda hoje pessoas utilizam a teologia da retribuição para se justificar e deixar passivos os que sofrem.
  • Jesus afirma a ressurreição; não há mortos diante do Deus da vida.
  • A fé na ressurreição, como Jesus ensinou, deve animar e dar coragem, não serve para deixar pessoas acomodadas à espera do céu.       

 

ANIMANDO A LITURGIA

 

I. Sentido  Litúrgico:

O final do ano se aproxima e a  liturgia destes últimos domingos do Tempo Comum, com forte tom de esperança, nos propõe fatos importantes de nossa fé: “o final dos tempos, a realização definitiva do Reino e o julgamento de Deus na história”.

Recordando a Páscoa de Jesus, fonte de nossa esperança e de nossa fé na ressurreição, proclamamos neste domingo que “nosso Deus é o Deus dos vivos”; o Deus da VIDA que nos chama a viver “ressuscitados”, desde agora, pela prática do amor em nossas relações, em nossas comunidades, e cultivando a alegria e a esperança mesmo em meio às aflições e “sufocos” do dia-a-dia. “A morte já foi vencida e carregamos em nós a semente da imortalidade”.

Que nesta celebração o Espírito de Amor nos fortaleça nesta caminhada e, perseverantes, cheguemos à realização definitiva desta “utopia” que nos alimenta: o Reino de Justiça, de paz e de fraternidade.

 

II. Sugestões  para  a   celebração:

 

1. A acolhida, o ensaio dos cantos e um breve silêncio no início da celebração ajudam a criar um clima orante, simples e alegre para que possa acontecer um encontro amoroso entre Deus e as pessoas e das pessoas entre si e com  Deus.

2. Quem preside faz a saudação inicial, com as palavras do vers. 16 da 2ª leitura ( 2ª Ts 2,16).

3. O texto da 1ª leitura poderá ser dialogado ou contado com muita expressão pelo(a) leitor(a).

4. Cantar o salmo 17 (16) de maneira que a assembléia participe repetindo o refrão e, no final, retome alguns versos com a ajuda do(a) salmista.

5. Dar destaque à proclamação do Evangelho, com aclamação alegre e, no final, repetindo, com a assembléia as palavras do vers. 38: “Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para ele!

6. Após a homilia, será oportuno uns instantes de silêncio para que cada pessoa renove sua fé na ressurreição, antes de professá-la comunitariamente, a seguir.

7. Valorizar a Profissão de Fé de forma dialogada. A assembléia participa com um gesto, ou resposta cantada, encorajando-se para a luta da vida.

8. A 2ª leitura nos oferece hoje ótimo conteúdo para as preces dos fiéis, além de outros que a comunidade traz.

9. Escolher entre as Orações Eucarísticas, uma que acentue a fé na ressurreição, como: Reconciliação II.

10. Toda a Liturgia Eucarística expresse também a ação de graças da comunidade pelo dom da VIDA. Mães gestantes, pessoas idosas, poderiam ficar ao redor do altar e no final receber uma bênção especial.

 

Maria de Lourdes Zavarez

Maria do Carmo de Oliveira

 

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