O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

SC 50 ANOS

SC. Novos enfoques a partir da GS

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Para o Encontro nacional de formação da REDE CELEBRA, Fortaleza, 15-22 de julho de 2012.

A LITURGIA RENOVADA PELO CONCÍLIO VATICANO II:
NOVOS ENFOQUES A PARTIR DA CONSTITUIÇÃO PASTORAL ‘GAUDIUM ET SPES’
SOBRE A IGREJA NO MUNDO DE HOJE.
Ione Buyst.
“O mundo e tudo o que tem nele é de DEUS,
A terra e os que aí vivem: todos seus!”(Sl 24/23)

A Sacrosanctum Concilium (SC), ‘Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia’ foi o primeiro documento a ser promulgado pelo Concílio Vaticano II, em 4 de dezembro de 1963. A Gaudium et Spes, (GS) ‘Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje’ foi o último, em 7 de dezembro de 1965, no encerramento do Concílio. É um documento bastante longo (93 artigos), organizada da seguinte forma:
Proêmio [abertura]: Solidariedade da Igreja com a família humana universal, destinatária das palavras do Concílio e à qual a Igreja quer servir.
Introdução: A condição humana no mundo de hoje.
Parte I: A Igreja e a vocação humana (com os seguintes capítulos):
1. A dignidade da pessoa humana; 2. A comunidade humana; 3. Sentido da atividade humana no mundo; 4. A função da Igreja no mundo de hoje.
Parte II: Alguns problemas mais urgentes (com os seguintes capítulos):
1. A promoção da dignidade do matrimônio e da família; 2. A promoção da cultura; 3. A vida econômico-social; 4. A vida da comunidade política; 5. A construção da paz e a promoção da comunidade dos povos.
Conclusão: O dever de cada fiel e das Igrejas particulares; o diálogo entre todos os homens [e mulheres]; construir o mundo e levá-lo ao seu fim.
Além de longo, o texto é um tanto heterogênio, resultado de várias contribuições, influências e debates na aula conciliar. Mas o objetivo do presente texto não é realizar uma analise crítica, nem fazer um estudo da Gaudium et Spes na íntegra, mas de ressaltar alguns elementos da autocompreensão da Igreja em sua relação com o mundo que influenciam e modificam nossa compreensão teológica da liturgia e trazem novas exigências para nossa prática litúrgica, celebrativa e formativa. De fato, as celebrações litúrgicas são “celebrações da Igreja (...) pertencem a todo o Corpo da Igreja e o manifestam e afetam” (SC 26); portanto, uma nova concepção da Igreja a respeito de si mesma e de sua relação com o ‘mundo’ deverá necessariamente ter influência em nossa maneira de celebrar e compreender a liturgia e organizar a pastoral litúrgica.
Num primeiro momento, vamos considerar o ponto de partida da Constituição: a presença dos discípulos de Cristo no mundo (GS 1-3). Em seguida, procuraremos desvendar a razão profunda, teológica, pela qual e de que maneira os cristãos atuam nas chamadas ‘realidades terrestres’: a história e o mundo como lugar da revelação do mistério e da atuação pascal de Deus. Num terceiro momento, lembraremos a relação que existe entre o mistério pascal vivido e o mesmo mistério celebrado na liturgia; o culto espiritual vivido em todos os momentos e aspectos da vida do cristão e sua expressão ritual, simbólico-sacramental, nas celebrações litúrgicas; ou ainda, a liturgia com ‘cume e fonte’ da missão da Igreja (Cf. SC 10), com uma atenção especial à atuação do Espírito Santo. Partindo desta relação intrínseca entre liturgia e missão, procuraremos tirar algumas sugestões para nossa maneira de realizar as celebrações litúrgicas, levando em conta a GS.
I. O ponto de partida: atitude solidária e missão dos discípulos e discípulas de Cristo nos relacionamentos cotidianos, na realidade histórica (GS 1-3)
O início da GS é extremamente atraente, humano, simpático. Não se fala da Igreja, mas dos discípulos de Cristo. Não são apresentados como uma casta perfeita, à parte, mas como humanos entre os humanos, solidários, fraternos, principalmente em relação aos pobres e sofredores:
“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens [e mulheres] de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos [e discípulas] de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.”
No entanto, algo os distingue dos demais:
“Porque a sua comunidade é formada por homens [e mulheres], que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história.” (GS 1)
Por isso, a Igreja quer dirigir a palavra à família humana, a todas as pessoas do mundo inteiro:
“Deseja expor-lhes o seu modo de conceber a presença e atividade da Igreja no mundo de hoje.” (GS 2)
E logo sintetiza sua maneira própria de entender este mundo:
“...o mundo dos homens, ou seja a inteira família humana, com todas as realidades no meio das quais vive; esse mundo que é teatro da história da humanidade, marcado pelo seu engenho, pelas suas derrotas e vitórias; mundo, que os cristãos acreditam ser criado e conservado pelo amor do Criador; caído, sem dúvida, sob a escravidão do pecado, mas libertado pela cruz e ressurreição de Cristo, vencedor do poder do maligno; mundo, finalmente, destinado, segundo o desígnio de Deus, a ser transformado e alcançar a própria realização.” (GS 2)
Não se trata de condenar (como a Igreja tantas vezes fez), mas de dialogar, de partilhar sua visão de mundo, de cooperar numa atitude de solidariedade, respeito e amor, para salvar o ser humano e crescermos juntos em direção à fraternidade universal. A Igreja pretende servir, como fez Jesus:
“Trata-se, com efeito, de salvar a pessoa do homem e de restaurar a sociedade humana. Por isso, o homem [ser humano] será o fulcro [eixo] de toda a nossa exposição: o homem na sua unidade e integridade: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade. Eis a razão por que este sagrado Concílio, proclamando a sublime vocação do homem [ser humano], e afirmando que nele está depositado um germe divino, oferece ao gênero humano a sincera cooperação da Igreja, a fim de instaurar a fraternidade universal que a esta vocação corresponde. Nenhuma ambição terrena move a Igreja, mas unicamente este objetivo: continuar, sob a direção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido.” (GS 3).

II. Um olhar de fé: o Mistério presente e atuante na história.
1. Estranhamento
Entrando em contato com o texto da GS, muitas pessoas estranham e até rejeitam o fato de a Igreja ´se meter em política’ e se manifestar em outros assuntos considerados ‘profanos’, que na opinião deles nada tem a ver com religião. Não compreendem por que um cristão deve ter preocupação com todos estes assuntos tratados na constituição conciliar e a relação que tudo isto pode ter com a liturgia: a condição do ser humano no mundo de hoje, os problemas e a organização da sociedade, o trabalho humano, o matrimônio e a família, a promoção da cultura, a vida econômica e social, a política, a construção da paz e a promoção da comunidade dos povos... Ou, na realidade atual, a preocupação com a ecologia e o desenvolvimento sustentável (‘economia verde’), com a miséria e a fome no mundo, com o persistente regime de escravidão de trabalhadores, com a construção de usinas hidroelétricas que podem causar a destruição de vários povos indígenas, com a gritante desigualdade social, com a homofobia, com o crescimento do número de abortos, com o tráfico de órgãos humanos... Acham que a Igreja deveria se restringir à sua responsabilidade religiosa e que a obrigação de um cristão - principalmente um cristão católico – se reduz a ir à missa e outras celebrações religiosas, para ´pedir e agradecer bênçãos recebidas’. Muita gente pensa assim, talvez porque não teve oportunidade de conhecer e assimilar os ensinamentos e a nova postura da Igreja no Concílio Vaticano II, mais especificamente na ‘Gaudium et Spes’, que trata de todos estes assuntos, porque considera a Igreja (enquanto organismo) e os cristãos (enquanto membros da Igreja) em sua relação com ‘o mundo’ um assunto de fé.
2. Deus presente e atuante em tudo o que existe
De fato, para nós, cristãos, o ‘mundo’ é ´coisa de Deus´. Foi Deus quem criou o mundo e tudo o que tem nele, como cantamos no Salmo 24/23. Mais que isso, Deus não está fora do mundo; não está fora da história, mas no âmago dela, criando e renovando a vida, sem cessar. O Verbo de Deus era no princípio..., “estava no mundo e o mundo foi feito por ele, mas o mundo não o reconheceu” (Jo 1). Também o Espírito, o Sopro de Deus, está atuante no coração do mundo, desde o início, quando pairava sobre as águas primordiais. E, quando o ser humano se desviou do caminho querido por Deus, colocando em perigo assim sua própria vida, Deus se fez um de nós, ser humano, em Jesus, para reconduzir-nos ao Pai, na força do Espírito de Amor, para fazer acontecer o Reino de Deus na realidade humana. Rejeitado, condenado à morte de cruz, deu sua vida livremente, confiando no Pai que o ressuscitou e o fez Senhor dos vivos e dos mortos. Assim cantamos no hino da carta aos Efésios: “Sim, derramou sobre nós graça abundante e saber, nos revelando o Mistério, plano de seu bem-querer, de conduzir a história à plena realização: Cristo encabeça o universo, terras e céus se unirão!” Ou no hino da carta aos Colossenses: “Tudo foi feito por ele, antes de tudo ele existe; tudo foi feito pra ele e nele tudo subsiste (...) Pois Deus em sua riqueza no Cristo quis habitar; por ele, Deus e o mundo vão se reconciliar.”
Este é em síntese o mistério de nossa fé, que tem seu ponto decisivo na morte e ressurreição de Jesus: a transformação pascal acontecendo e envolvendo todas as coisas - desde o princípio da criação até o pleno advento do Reino de Deus -, transformando-as com o amor do Espírito que vai penetrando toda a realidade, em meio às dificuldades da vida, em meio às contradições, incompreensões, traições, perseguições e todas as forças do mal que procuram solapar e impedir a vinda do Reino.
3. O mistério de Deus, um mistério pascal.
A fé cristã vê, pois, em toda a realidade histórica (em seus aspectos positivos e negativos, experiências de graça e de pecado), uma autocomunicação de Deus-Amor, que teve seu ponto alto na pessoa de Jesus de Nazaré, Filho de Deus Pai, que nos comunicou o Espírito de Deus. Para designar este processo, a teologia usa vários termos: teologia da criação, teologia da recapitulação, economia da salvação, história da salvação, mistério, e principalmente, mistério pascal. O mistério pascal abrange toda a história do cosmos e a história humana - passado, presente e futuro - na qual tudo está interligado. É a ação de Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, atuando dinamicamente em toda a realidade: criando e recriando, perdoando, salvando, resgatando, unindo, renovando e plenificando tudo no amor. E nós, discípulos e discípulas de Jesus, membros do Corpo de Cristo, somos enviados no meio do mundo como sinal e instrumento desta transformação pascal. Somos chamados e convocados para levar adiante a missão de Jesus, na força do Espírito, até que cheguem os ´novos céus e a nova terra´.
Aprendemos muito com a teologia das igrejas orientais na qual a ressurreição Â“É um evento cósmico, universal, imanente no mundo material, elevando-o, unificando a humanidade, dando-lhe o Espírito Santo para constituir o Corpo místico, o povo de Deus. (...) O Verbo, como homem, uniu-se à matéria de tal sorte que a matéria se uniu à divindade. (...) É por isso que a ressurreição de Cristo torna-se também a ressurreição da humanidade e da matéria, segundo a expressão de São Paulo (Fl 5,10).”
Um teólogo francês, perito do Concílio observa: “Talvez que até agora não se haja sublinhado bastante um dos eixos-mores da eclesiologia em que repousa toda a renovação dogmática do Vaticano II. Quer se trate do Corpo de Cristo, mantido no coração do capítulo primeiro da Lumen Gentium, quer se trate do tema do Povo de Deus, maravilhosamente reposto em luz, a Igreja já não se define sobretudo pela relação de seus membros a um meio visível e criado, mas sim pela relação destes à fonte de toda a realidade – mesmo divina e trans-histórica – o Pai. Assim (...) retoma ela consciência de sua natureza de Ekklesia tou Theou [Assembléia de Deus]...” Ela é enviada ao mundo como serva do plano de amor do Pai, ´mistério´ eternamente oculto no segredo do Pai, como sinal e instrumento “da irradiação de amor universal de que ela faz a experiência.”
Vejamos, nesta perspectiva, algumas passagens de GS 38-39, que tratam da atividade humana aperfeiçoada no mistério pascal, em direção à plenitude, em direção ao Reino de Deus, na visão cristã da história:
“O Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, fazendo-se homem e vivendo na terra dos homens, entrou como homem perfeito na história do mundo, assumindo-a e recapitulando-a. Ele revela-nos que «Deus é amor» (1Jo 4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor. Dá, assim, aos que acreditam no amor de Deus, a certeza de que o caminho do amor está aberto para todos e que o esforço por estabelecer a universal fraternidade não é vão.
Adverte, ao mesmo tempo, que este amor não se deve exercitar apenas nas coisas grandes, mas, antes de mais, nas circunstâncias ordinárias da vida. Suportando a morte por todos nós pecadores, ensina-nos com o seu exemplo que também devemos levar a cruz que a carne e o mundo fazem pesar sobre os ombros daqueles que buscam a paz e a justiça. Constituído Senhor pela sua ressurreição, Cristo, a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, atua já pela força do Espírito Santo nos corações dos homens [e mulheres]; não suscita neles apenas o desejo da vida futura, mas, por isso mesmo, anima, purifica e fortalece também aquelas generosas aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana e a submeter para esse fim toda a terra.
Sem dúvida, os dons do Espírito são diversos: enquanto chama alguns a darem claro testemunho do desejo da pátria celeste e a conservarem-no vivo no seio da família humana, chama outros a dedicarem-se ao serviço terreno dos homens [e mulheres], preparando com esta sua atividade como que a matéria do reino dos céus. Liberta, porém, a todos, para que, deixando o amor próprio e empregando em favor da vida humana todas as energias terrenas, se lancem para o futuro, em que a humanidade se tornará oblação agradável a Deus.
O penhor desta esperança e o viático para este caminho deixou-os o Senhor aos seus naquele sacramento da fé, em que os elementos naturais, cultivados pelo homem, se convertem no Corpo e Sangue gloriosos, na ceia da comunhão fraterna e na prelibação do banquete celeste.
Ignoramos o tempo em que a terra e a humanidade atingirão a sua plenitude, e também não sabemos que transformação sofrerá o universo. (...) É certo que é-nos lembrado que de nada serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se a si mesmo se vem a perder. A expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer, mas antes ativar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro. Por conseguinte, embora o progresso terreno se deva cuidadosamente distinguir do crescimento do reino de Cristo, todavia, na medida em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao reino de Deus. (...) Sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente; quando o Senhor vier, atingirá a perfeição.”
4. Nossa vocação e missão como cristãos no mundo: participar no aperfeiçoamento do mistério pascal
Nesta visão teológica, portanto, toda a realidade e todo o processo histórico tornou-se ‘assunto de fé’, lugar de missão, porque nele está crescendo o Reino de Deus, pela ação do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo e na qual os cristãos estão imersas, juntamente com todas as pessoas e com todas as outras tradições culturais, religiosas ou não. A Igreja existe no mundo: como parte integrante, chamada a ser solidário com toda a humanidade; existe para o mundo, ou seja, a serviço do Reino de Deus no mundo, como ´fermento na massa’, fermento do Reino de Deus na realidade histórica e cósmica, para levar todas as ‘realidades terrestres’ à sua plena realização. O Concílio Vaticano II nos fez redescobrir nossa vocação, nossa missão: o chamado e o envio por parte de Deus, em Jesus Cristo, no Espírito Santo, para perceber e experenciar sua presença salvadora, para colaborar com ele na constante criação e recriação pascal do mundo, para levar avante seu plano de salvação, salvando o ser humano, salvando vidas..., unindo pessoas, unindo povos e culturas. A missão não consiste em convencer e converter os ‘outros’ à nossa religião, mas em reconhecer neles a presença do Espírito de Deus e dialogar. O Espírito é universal, porque o Amor é universal e não conhece fronteiras geográficas, culturais, sociopolíticas, religiosas...
Vejamos a respeito um pequeno parágrafo de GS 22:
E o que fica dito, vale não só dos cristãos, mas de todos os homens [e mulheres] de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente. Com efeito, já que por todos morreu Cristo e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido.

III. Liturgia e missão: dois polos complementares.
Comparando o primeiro com o último documento promulgado no Concílio Vaticano II, podemos constatar várias mudanças de perspectiva que pedem um alargamento de nossa maneira de compreender e celebrar a liturgia. Vejamos:
1. Mistério celebrado, mistério vivido. - A SC destacou a relação entre a liturgia e a história, sendo a liturgia memorial das ações salvadoras realizadas por Deus ao longo da história do povo de Deus no passado e atualizadas ritualmente na celebração litúrgica. A GS, no entanto, chama a atenção para a salvação realizada por Deus nos acontecimentos atuais da história pessoal, comunitária, mundial, cósmica. A SC descreve a liturgia como sendo celebração do mistério pascal e fala da presença pascal transformadora de Cristo nas ações litúrgicas. GS aponta para o mistério pascal como sendo um acontecimento cósmico e histórico, que perpassa toda a realidade. Portanto, a liturgia terá que levar em conta e expressar esta dimensão atual da salvação apontada pela GS; deverá chamar a atenção para os ‘sinais dos tempos’ e explicitar a passagem (páscoa) de Deus nestes acontecimentos atuais. Além disso, podemos dizer que a GS retoma a noção bíblica de compromisso, implícito na celebração memorial: a participação no memorial de Cristo, a celebração de seu mistério pascal, nos reenvia sempre de novo à missão no meio do mundo, na história atual.
2- Sacerdócio e culto: na liturgia e na ´vida´.
A SC recuperou o conceito bíblico de ´povo de Deus’, ‘povo sacerdotal´, sujeito das celebrações litúrgicas, (Cf. SC 14 e 26), Corpo de Cristo Sacerdote, no Espírito Santo, oferecendo a Deus, na liturgia, o culto público e integral (Cf. SC 7). No entanto, documentos conciliares posteriores fazem uso do mesmo vocabulário cultual, (sacerdócio e culto), referindo-se a atividades não cúlticas, ou seja, às atividades geralmente consideradas como ‘profanas’. Por exemplo:
LG (Constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja), 34: “O supremo e eterno sacerdote Cristo Jesus, querendo também por meio dos leigos continuar o Seu testemunho e serviço, vivifica-o pelo Seu Espírito e sem cessar os incita a toda a obra boa e perfeita. E assim, àqueles que intimamente associou à própria vida e missão, concedeu também participação no seu múnus sacerdotal, a fim de que exerçam um culto espiritual, para glória de Deus e salvação dos homens. Por esta razão, os leigos, enquanto consagrados a Cristo e ungidos no Espírito Santo, têm uma vocação admirável e são instruídos para que os frutos do Espírito se multipliquem neles cada vez mais abundantemente. Pois todos os seus trabalhos, orações e empreendimentos apostólicos, a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, o descanso do espírito e do corpo, se forem feitos no Espírito, e as próprias incômodos da vida, suportadas com paciência, se tornam em outros tantos sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo (cfr. 1 Ped. 2,5); sacrifícios estes que são piedosamente oferecidos ao Pai, juntamente com a oblação do corpo do Senhor, na celebração da Eucaristia. E deste modo, os leigos, agindo em toda a parte santamente, como adoradores, consagram a Deus o próprio mundo.
AA (Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o apostolado dos leigos), 3: – “O dever e o direito ao apostolado advêm aos leigos da sua mesma união com Cristo cabeça. Com efeito, inseridos pelo Batismo no Corpo místico de Cristo, e robustecidos pela Confirmação com a força do Espírito Santo, é pelo Senhor mesmo que são destinados ao apostolado. São consagrados em ordem a um sacerdócio real e um povo santo (cfr. 1 Ped. 2, 4-10) para que todas as suas atividades sejam oblações espirituais e por toda a terra dêem testemunho de Cristo. E os sacramentos, sobretudo a sagrada Eucaristia, comunicam e alimentam neles aquele amor que é a alma de todo o apostolado.”
Acima já citamos GS 39, que fala da atividade dos cristãos no mundo sendo ‘como que a matéria do reino dos céus’, que está prefigurado na eucaristia na qual o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho de homens e mulheres, são transformados pela palavra do Senhor em Corpo e Sangue de Cristo, ceia de comunhão fraterna e antecipação do banquete do Reino.
Portanto, a oferta do sacrifício de nossa vida, juntamente com a oferta de Jesus Cristo, na celebração eucarística, assim como no ofício divino, supõe o sacrifício vivido no dia-a-dia em todas as realidades e atividades da vida. Não se pode separar o sacerdócio na liturgia do sacerdócio no ‘mundo’, nem separar o culto na expressão ritual na liturgia do culto existencial vivido ao longo do dia. Ou seja, há uma complementação entre o culto celebrado e o culto vivido no dia-a-dia, assim como entre nossa ação sacerdotal na liturgia e nossa ação como sacerdotes no mundo (e do mundo). ‘Missa’ e ‘missão’ são indissociáveis; uma não existe sem a outra. Trata-se do muito citado binômio ‘liturgia/vida’. Ficar somente com as celebrações litúrgicas, sem a vivência da fé no ‘mundo’, acaba sendo uma infidelidade, um disfarce. Seria como se Jesus, depois da última ceia, fugisse para não ter que enfrentar a prisão e a morte de cruz... De nada adianta, portanto, multiplicar celebrações eucarísticas sem que haja uma contrapartida na ‘vida’ a serviço do crescimento do Reino no mundo. O contrário também é verdadeiro: ninguém pode ir para a missão, sem antes ter sido iniciado e feito participante do mistério de Cristo pelos sacramentos. O engajamento missionário nasce da participação nos mistérios celebrados na liturgia, começando com o batismo (Cf. Rm 6,3-11) e tendo como ponto alto a celebração eucarística (Cf. 1Cor 11,17-34). Somos enviados a partir desta participação, como membros do Corpo de Cristo no Espírito.
3. Liturgia é ´cume e fonte´ da vida cristã no mundo
A expressão ‘cume e fonte’ em SC 10 aponta para a mesma relação intrínseca, profunda, entre liturgia e ´vida’. No entanto, indica que liturgia e ‘vida’ são dois momentos interligados, sim, mas não equivalentes: a liturgia é a referência para nosso agir como cristãos; mais que isso: ‘é dela que emana toda a força’ da ação da Igreja para o testemunho, para a missão a serviço do Reino de Deus no mundo. O que está em jogo é a compreensão mais profunda e a vivência do mistério, tanto na liturgia, quanto na missão. Afinal, o fundamento de ambas é nossa participação no mistério da salvação, em continuidade com o envio de Cristo e do Espírito, para ´recapitular´, reunir todas as coisas no amor de Cristo. Na liturgia, fazemos memória do mistério de Cristo, por meio de ´ritos e preces’ (SC 48), ações simbólico-rituais, expressão e fonte de nossa fé que nos vem da Palavra anunciada e aceita; somos imbuídos, impregnados, mergulhados na vida em Cristo e no Espírito. Na liturgia recebemos nossa identidade profunda de discípulos-missionários de Cristo. Somos enviados em missão a partir de nossa participação no mistério de Cristo pelo batismo, confirmação, eucaristia e demais ações litúrgicas. Não há missão cristã, sem participação ativa, consciente na liturgia; não há liturgia cristã verdadeira se não se prolongue no ´culto espiritual´, não apenas ´litúrgico-celebrativo´, mas existencial, efetivo, no testemunho e na missão a serviço do Reino na sociedade, como um fermento na massa.
Na prática, porém, esta relação nem sempre é percebida e vivida conscientemente. A própria GS é mais uma prova disso: em nenhum momento a GS cita a SC, embora haja algumas referências à liturgia ao longo do texto (como, p. ex.: GS 38/317, já citado acima). Falta em nossas celebrações litúrgicas a referência à missão e falta na missão o embasamento vital da liturgia. Há uma ruptura, uma distância, entre os ´igrejeiros´ e os ‘engajados’; cada um por seu lado. Os primeiros, católicos ´praticantes´ participam da liturgia sem levar em conta a presença do mistério no mundo e o chamado para a missão. Os últimos, participantes ativos na missão, seja individualmente, seja nas várias pastorais organizadas na sociedade em nome do evangelho, muitas vezes não participam da liturgia. Por que? Ou porque ‘não sentem falta’, ou porque consideram as celebrações litúrgicas ‘alienadas’, não expressando devidamente a presença do mistério no mundo e a relação da liturgia com a missão. Percebemos aqui uma falta de formação que integre estas duas dimensões da vida cristã, tanto na pastoral litúrgica, quanto nas pastorais sociais. Na maior parte das dioceses, paróquias, comunidades, movimentos... cada qual restringe-se à sua ‘área’; os grupos atuam como pequenas ´igrejas´ paralelas, independentes, isoladas em suas preocupações e metodologias. E a celebração dominical que seria, em princípio, o centro da vida comunitária de uma Igreja a serviço do mundo acaba sendo uma atividade religiosa, sim, mas fechada numa atitude ‘bairrista’, preocupada somente com seus interesses internos, suas devoções. Aí vai o desafio: superar o ‘divórcio’ entre a fé e a vida, contra o qual alerta GS 43:
GS 43. “O Concílio exorta os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a que procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que vamos em demanda da futura, pensam que podem por isso descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé ainda os obriga mais a cumpri-los, segundo a vocação própria de cada um. Mas não menos erram os que, pelo contrário, opinam poder entregar-se às ocupações terrenas, como se estas fossem inteiramente alheias à vida religiosa, a qual pensam consistir apenas no cumprimento dos atos de culto e de certos deveres morais. Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo. Já no Antigo Testamento os profetas denunciam este escândalo; no Novo, Cristo ameaçou-o ainda mais veementemente com graves castigos. Não se oponham, pois, infundadamente, as atividades profissionais e sociais, por um lado, e a vida religiosa, por outro. O cristão que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna. A exemplo de Cristo que exerceu um mister de operário, alegrem-se antes os cristãos por poderem exercer todas as atividades terrenas, unindo numa síntese vital todos os seus esforços humanos, domésticos, profissionais, científicos ou técnicos com os valores religiosos, sob cuja elevada ordenação, tudo se coordena para glória de Deus.
As tarefas e atividades seculares competem como próprias, embora não exclusivamente, aos leigos. Por esta razão, sempre que, a sós ou associados, atuam como cidadãos do mundo, não só devem respeitar as leis próprias de cada domínio, mas procurarão alcançar neles uma real competência. Cooperarão de boa vontade com os homens [e mulheres] que prosseguem os mesmos fins. Reconhecendo quais são as exigências da fé, e por ela robustecidos, não hesitem, quando for oportuno, em idear novas iniciativas e levá-las a realização. Compete à sua consciência prèviamente bem formada, imprimir a lei divina na vida da cidade terrestre. Dos sacerdotes, esperem os leigos a luz e força espiritual. Mas não pensem que os seus pastores estão sempre de tal modo preparados que tenham uma solução pronta para qualquer questão, mesmo grave, que surja, ou que tal é a sua missão. Antes, esclarecidos pela sabedoria cristã, e atendendo à doutrina do magistério (17), tomem por si mesmos as próprias responsabilidades.
4. Atenção ao Espírito Santo
O ‘divórcio’ entre fé e vida, ou entre liturgia e missão talvez tenha como uma de suas causas a pouca atenção dada à ação do Espírito Santo, tanto na liturgia, quanto na missão. A reforma litúrgica pós-conciliar introduziu conscienciosamente as epícleses, p. ex. nas orações eucarísticas; porém, cabe perguntar: os participantes de nossas celebrações dominicais tem consciência desta mudança e a integraram em sua maneira de celebrar e em sua espiritualidade? Podemos fazer uma observação semelhante no que refere à ação do Espírito Santo na missão: encontramos na GS trinta e três referências ao Espírito Santo (na SC há apenas cinco). Poderá isto significar, pelo menos em nível de intenção e de proposta pastoral, uma tentativa de corrigir o racionalismo (intelectualismo) e o ativismo característicos da cultura (e da Igreja) ocidental e a vontade de impor o próprio pensamento, opinião e doutrinas aos demais?
Os cristãos das Igrejas orientais, com seu sentido místico, são mais sensíveis e atentos à realidade espiritual; dão muita importância à liturgia, à oração pessoal. Tem consciência da atuação do Espírito do Ressuscitado na história e de que os cristãos são portadores do Espírito que os transforma interiormente. Sua participação no Concílio (bispos e observadores) influenciou muito a reflexão e a redação dos textos do Vaticano II, também quanto à presença do Espírito Santo no mundo e na atenção que devemos prestar a isso. Reconhecer em nós, nas outras pessoas e na história a presença e atuação do Espírito de Deus nos coloca em situação de escuta atenta, de abertura e de reciprocidade. Vejamos neste sentido alguns textos da GS: sobre a vida interior, o diálogo , a atenção aos sinais dos tempos.
 GS 14 – “Não se engana o homem, quando se reconhece por superior às coisas materiais e se considera como algo mais do que simples parcela da natureza ou anônimo elemento da cidade dos homens. Pela sua INTERIORIDADE, transcende o universo das coisas: tal é o conhecimento profundo que ele alcança quando reentra no seu interior, onde Deus, que perscruta os corações, o espera, e onde ele, sob o olhar do Senhor, decide da própria sorte. Ao reconhecer, pois, em si uma alma espiritual e imortal, não se ilude com uma enganosa criação imaginativa, mero resultado de condições físicas e sociais; atinge, pelo contrário, a verdade profunda das coisas.”

 GS 23. “Entre os principais aspectos do mundo atual conta-se a multiplicação das relações entre os homens, cujo desenvolvimento é muito favorecido pelos progressos técnicos hodiernos. Todavia, o DIÁLOGO fraterno entre os homens não se realiza ao nível destes progressos, mas ao nível mais profundo da comunidade de pessoas, a qual exige o mútuo respeito da sua plena dignidade espiritual. A revelação cristã favorece poderosamente esta comunhão entre as pessoas, ao mesmo tempo que nos leva a uma compreensão mais profunda das leis da vida social que o Criador inscreveu na natureza espiritual e moral do homem.”
GS 92. “Em virtude da sua missão de iluminar o mundo inteiro com a mensagem de Cristo e de reunir sob um só Espírito todos os homens [e mulheres], de qualquer nação, raça ou cultura, a Igreja constitui um sinal daquela fraternidade que torna possível e fortalece o DIÁLOGO sincero.”
 GS 4. Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja investigar a todo o momento os SINAIS DOS TEMPOS, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens [e mulheres] acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático.
GS 11. O Povo de Deus, movido pela fé com que acredita ser conduzido pelo Espírito do Senhor, o qual enche o universo, esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens [e mulheres] de hoje, quais são os verdadeiros SINAIS DA PRESENÇA OU DA VONTADE DE DEUS. Porque a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o desígnio divino acerca da vocação integral do homem e, dessa forma, orienta o espírito para soluções plenamente humanas.
Esta atenção aos ‘sinais dos tempos’ é uma característica das encíclicas sociais do papa João XXIII (as mais importantes são Mater et Magistra e Pacem in terris) que sempre iniciam falando da realidade atual. Qual a importância desta metodologia usada na GS (e seguida depois nos documentos do CELAM e da CNBB)? Ela parte de um terreno comum dos cristãos com seus interlocutores – a experiência de vida, a realidade histórica - e, assim, permite uma conversa entre iguais. Procura-se interpretar os fatos à luz do evangelho e vice-versa. Isto vai muito além de uma análise de conjuntura ou de uma leitura puramente sociológica, histórica, política, intelectual... Ler os sinais dos tempos requer uma atitude espiritual, que deve acompanhar inclusive qualquer planejamento pastoral.
IV. Algumas sugestões para nossa maneira de realizar as celebrações litúrgicas, levando em conta os ensinamentos da Gaudium et Spes (GS)
A estreita ligação apontada pela GS entre mistério celebrado e mistério vivido na história, entre sacerdócio e culto na liturgia e na vida, ou seja, entre ´missa’ e ‘missão’, exige uma maneira de celebrar que expresse e ajude a vivenciar esta ligação. Como fazer isso na prática, por exemplo, na celebração dominical, centro da vida de qualquer comunidade cristã? Seguem algumas sugestões, em dois tempos: 1. Em determinados momentos da celebração, breves alusões à realidade que nos ajudem a ligar ‘liturgia e vida’; 2. Atenção à atitude espiritual que cada participante é convidado a assumir, ao participar ativa, consciente e piedosamente de todas as ações litúrgicas (os ‘ritos e preces’ dos quais fala SC 48).
1. Em determinados momentos na celebração, breves alusões à realidade vivida:
1) Após a saudação, ou no início da liturgia da Palavra, um momento de recordação da vida. Não se trata de um ‘noticiário’, mas de um olhar que ressalta momentos ou fatos (do dia, ou da semana que passou), que nos parecem significativos do ponto de vista do Reino de Deus no mundo. O tom é de conversa familiar, de atenção aos acontecimentos na realidade local, nacional, internacional... (Poderá ser feita logo após a saudação, ou no início da liturgia da Palavra, ou na homilia, ou, no caso do ofício divino, após a abertura). Em ocasiões especiais como batismo, matrimônio, exéquias, etc... a recordação da vida poderá se concentrar no caminho percorrido por estas pessoas para chegar a este momento. Por exemplo, momentos significativos de encontro com Deus ou de descoberta do evangelho de Jesus: na preparação ao batismo, na vida destes noivos, na vida da pessoa falecida...
2) No rito penitencial, podemos chamar a atenção para algum acontecimento social que merece nossa reflexão e um pedido de perdão; não nos esqueçamos de deixar um momento de silêncio para cada pessoa ter tempo de se colocar diante do Senhor e pedir perdão do fundo do coração.
3) A homilia é o ponto principal no qual se deve explicitar a relação liturgia-vida, seja partindo das leituras bíblicas, seja partindo de um fato acontecido. O objetivo é perceber o apelo de Deus, partindo da realidade iluminada pela Palavra de Deus e suscitar em nós uma resposta de fé na liturgia e na vida. Após a homilia cabe um momento de silêncio, eventualmente introduzido por uma breve motivação. Por exemplo: ‘Deixemos esta palavra do Senhor ecoar no silêncio de nosso coração...’.
4) A oração dos fiéis é o momento de nos juntar, de coração, à intercessão de Jesus, que está à direita do Pai, atento a tudo o que acontece no mundo. Ensina a Instrução Geral do Missal Romano, n. 69: “o povo responde (...) à Palavra de Deus acolhida na fé e, exercendo a sua função sacerdotal, eleva as preces a Deus pela salvação de todos. (...) que se reze pela santa Igreja, pelos governantes, pelos que sofrem necessidades, por todos os seres humanos e pela salvação do mundo inteiro”. (Cf. SC 53). Urge quebrar o estilo formal, automática, de leitura de ‘preces’, incapazes de suscitar em nós uma oração de verdade.
5) O início da Oração eucarística, antes do prefácio, “pode ser um dos momentos oportunos para recordar os motivos de ação de graças da comunidade e uni-las à grande ação de graças da Igreja, a Eucaristia”, sugere um documento da CNBB.
6) Bem melhor do que iniciar a celebração eucarística com uma deslocada e longa lista de ‘intenções da santa missa’, é lembrar o nome de nossos falecidos dentro da oração eucarística, quando se diz: Lembrai-vos, ó Pai, de nossos irmãos e irmãs que morreram na esperança da ressurreição...Não nos esqueçamos de lembrar também vítimas da fome, assaltos, desastres naturais ou do tráfego...
7) No embolismo que prolonga o último pedido do pai-nosso, poderíamos colocar diante de Deus os males que, neste momento, mais afligem nossa comunidade, nosso país, a humanidade: “Livrai-nos, ó Pai, da injustiça, do desemprego, da violência, das doenças contagiosas, da hipocrisia...” Podemos até deixar ou sugerir que outras pessoas livremente completem esta lista, sempre em atitude de oração.
8) Na oração depois da comunhão, ou junto com a bênção e a despedida, seria bom lembrar a missão para a qual o Senhor nos envia no mundo, na sociedade. Poderá estar relacionado com alguma atividade programada na cidade ou região, ou com um fato ou problema lembrado na recordação da vida, ou ainda relacionado com as leituras bíblicas proclamadas e interpretadas...
9) Os avisos não devem ser necessariamente ‘paróquias’ ou restritos à vida interna da comunidade ou da Igreja. Não caberiam também outros assuntos relacionados com a participação cultural, social, política... que tenham interesse do ponto de vista do Reino de Deus?
2. Atenção à atitude espiritual que cada participante é convidado a assumir:
1) “A missa começa em casa. Começa com esta decisão pessoal de cada um, de cada uma de nós: "Vou à missa!". Os passos que vamos dando para ir de casa ao lugar da celebração, são como que símbolo de tantos e tantos passos dados durante a semana que passou e que vamos agora recolhendo. São passos da caminhada pessoal: ida ao trabalho, andanças dentro de casa, no campo, na cidade, encontros significativos, maior conhecimento de nós mesmos... São passos dados também da caminhada comunitária e social: as reuniões, os mutirões, os avanços na luta por cidadania, justiça, paz... Ao entrar pela porta, a realidade que carregamos no corpo, na mente e no coração, entra junto conosco para a celebração. Mas é bom prestar atenção à "porta", ao limiar. Por ela entramos no recinto sagrado (mesmo que não haja uma igreja de tijolo, mas uma simples roda debaixo de uma árvore ou num galpão). Transpondo esta fronteira, este limiar, reconhecemos que toda a realidade, toda a nossa vida, tudo o que existe e que está de alguma forma presente em nós, tem uma direção, tem um ponto de referência, tem um ponto de chegada: DEUS.”
2) À saudação do presidente, respondemos: Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo. “Foi Deus quem nos convocou, quem nos chamou. (...) É por causa de Deus que saímos de nossas casas, deixamos nossas ocupações. Viemos para adorar, para louvar e agradecer. Viemos para ouvir sua Palavra e suplicar pelo fim de nossos problemas e pela vinda do Reino entre nós. Viemos para anunciar a morte do Senhor "até que Ele venha" e para proclamar a ressurreição. Viemos para sermos por ele revestidos da força do alto e enviados em missão...”
3) Em vários momentos da celebração, somos convidados a cantar juntos, ‘a uma só voz’, como ouvimos no final do prefácio. Somos como um único corpo, como uma única voz, um único coração, um único espírito. Em nós cantam os coros do livro do Apocalipse que estão diante do trono de Deus e do Cordeiro; são milhares de pessoas do mundo inteiro, de todas as nações e culturas..., vivas e defuntas. Cantemos, cantemos juntos! Prestemos atenção às palavras do nosso canto e ao Espírito que canta em nós.
4) As leituras escutadas e meditadas na assembleia reunida são palavra viva e atual do Senhor. Â‘É Cristo que fala’ (SC 7). Sentados aos pés de Jesus, ou em pé ao redor dele, abrimos o ouvido e o coração. Acolhemos a boa palavra, a boa notícia. Deixamos que faça em nós seu trabalho criador, renovador, que cure nossas feridas, desperte nosso desejo, reanime nossas forças... Mas a palavra não é de salvação somente para nós, mas para o mundo inteiro. Somos convidados a ler e interpretar os acontecimentos atuais à luz das Escrituras antigas, tendo como referência principal a pessoa de Jesus. Atentos aos sinais dos tempos e a tudo o que acontece no mundo, procuramos qual a mensagem que o Senhor nos dirige hoje e qual seu apelo para nós em relação à missão na sociedade.
5) Na procissão das oferendas, podemos levar, juntamente com o pão e o vinho, outros ‘frutos da terra e do trabalho de homens e mulheres’ , símbolos de nosso viver, sofrer e amar... A coleta do dízimo pode vir completada com ofertas em dinheiro ou espécies para colaborar com pessoas necessitadas do bairro ou de cidade ou com uma coleta a favor de vítimas de catástrofes até de outros países ou continentes. É colaboração com nossa ´família´universal. O pão e o vinho simbolizam toda a nossa realidade: fruto da terra, fruto da videira e do trabalho humano. “Ali estão presentes o dinamismo das forças cósmicas, toda a energia presente na natureza, em cada partícula de matéria...; estão presentes a inteligência, a inventividade, a força de trabalho colocada em ação pelo ser humano... No pão e no vinho está condensada a alegria de viver, produzir, criar, desfrutar, conviver... Mas estão presentes também: o sofrimento, a dor, a humilhação de quem trabalha sem ganhar o suficiente; de quem não encontra mais emprego; de quem luta pela reforma agrária, contra a concentração das terras e dos bens nas mãos de poucos; a dor dos excluídos, a dor dos doentes, de quem se sente fracassado na vida, no amor, no trabalho... Estão presentes ainda, antecipadamente, o futuro melhor, a sociedade nova que Deus prometeu, que nós aguardamos e preparamos na esperança e que vai aparecendo entre nós em pequenos sinais de partilha, em mutirões, associações, cooperativas... e também em nosso dia-a-dia.” E, de coração, dizemos: Bendito seja Deus!
6) No centro da oração eucarística, no momento da oblação, fazemos memória da entrega de Jesus, com os sinais do pão e do vinho: “Nós vos oferecemos, ó Pai, o pão da vida e o cálice da salvação” Oferecemos o próprio Cristo e nossa vida e a vida do mundo inteiro, inserida na dele, como oferenda permanente de louvor ao Pai. Que consequências isso tem em nosso dia-a-dia? Não nos pertencemos mais. Decidimos viver não mais por nossa conta, mas engajados e engajadas na continuação da missão de Jesus, doando-nos ao Pai, a serviço dos irmãos e irmãs, com o culto espiritual que espera de nós (Cf. Romanos 12,1-2). Nossa oferta culmina no gesto e nas palavras finais da oração eucarística; com o pão e o cálice levantados ao alto, cantamos: “Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amém!”
7) “A aclamação final, o grande "Amém", é o "sim" da Aliança. É ao mesmo tempo aceitação, ato de fé e compromisso. Sim, ó Pai, reconhecemos que por Jesus nos veio a salvação; aceitamos tua proposta, teu projeto para a história. Acreditamos na tua promessa de um mundo melhor, justo e fraterno. Queremos trilhar o caminho de salvação aberto por Jesus: caminho de solidariedade entre os pequenos, de partilha e comunhão, de compromisso.”
8) “O gesto da fração do pão realizado por Cristo na última ceia, que no tempo apostólico deu o nome a toda a ação eucarística, significa que muitos fiéis, pela comunhão no único pão da vida, que é o Cristo, morto e ressuscitado pela salvação do mundo, formam um só corpo (1Cor 10,17)” O corpo sacramental alimenta o corpo eclesial, a Igreja, que por sua vez é enviada ao mundo para cuidar, para salvar o corpo social.
9) Pela comunhão somos inseridos cada vez mais profundamente no ‘Corpo de Cristo’, a Igreja espalhada no mundo inteiro. Somos convidados a nos unir principalmente com as pessoas que estão sofrendo, como fez Jesus. É o que nos lembra um dos cantos de comunhão:"Receber a comunhão com este povo sofrido, é fazer a aliança com a causa do oprimido... Celebrar a eucaristia com famintos e humilhados, com o pobre lavrador sem ter nada no roçado, é estar em comunhão com Jesus crucificado!..." E nos unimos às pessoas do mundo inteiro, rostos e acontecimentos que ouvimos ou vimos no noticiário, pessoas que encontramos durante a semana, doentes que visitamos... Em Cristo, formamos uma só grande família, e somos chamados a conviver, a partilhar, a trabalhar por ‘um outro mundo possível’.
10) Ide em paz e o Senhor vos acompanhe! Renovados pela participação na assembléia, na escuta da Palavra e na celebração do mistério eucarístico, o Senhor nos envia de volta à missão, como fermento na massa a serviço do Reino, como testemunhas do Ressuscitado.
Estas são algumas das atitudes espirituais a serem aprendidas ao longo de um processo de iniciação, na catequese, na formação permanente, na ‘escola’ da própria liturgia e, principalmente, nas reuniões da comunidade de fé, onde se faz a diligente ‘leitura’ da realidade histórica à luz do evangelho de Jesus Cristo. Sem comunidades vivas, enraizadas e engajadas na transformação da realidade social ‘para que todos tenham vida’ (Jo 10,10), não é possível celebrar de acordo com as orientações do Concílio Vaticano II.
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Textos consultados:
BARAÚNA, Guilherme (org). A Sagrada Liturgia renovada pelo Concílio. Vozes, Petrópolis, 1964.
BARAÚNA, Guilherme (org). A Igreja no mundo de hoje. Vozes, Petrópolis, 1967.
DANNEELS, G. et alii. La liturgie dans les documents de Vatican II. Bruges (Belgium): Biblica 1966.
GONÇALVES, Alfredo. Concílio Vaticano II e Gaudium et Spes, a carta magna da pastoral social. http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=65491, 23/03/2012.
“Sinais dos tempos”, Em: FIORES, Stefano & GOFFI, Tullo. Dicionário de Espiritualidade. São Paulo, Paulinas/Paulistas, 1989, pp. 1078-93. [Sem indicação da autoria do verbete].
Ione Buyst.